sábado, 21 de maio de 2016

Em péssima fase e dependendo de eternos rivais, Dínamo Moscou pode ser rebaixado pela primeira vez na história

Torcida do Spartak provoca rival Dínamo Moscou com bandeira com nomes de clubes da segunda divisão

O futebol chegou à Rússia na década de 1890 e sua Federação foi fundada em janeiro de 1912. Cinco anos depois, quando em 7 de novembro de 1917 os Guardas Vermelhos avançaram sobre o Palácio de Inverno, o Governo Provisório foi derrubado e se instituiu a República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Que em 1922, após a Guerra Civil, viria a se tornar União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mas somente em 1934 surgiria a Federação de Futebol da União Soviética. E só em 1936 haveria a primeira edição do Campeonato Soviético. Desde então, em toda a história do futebol soviético e pós-soviético (o que inclui os campeonatos das ex-repúblicas soviéticas) apenas três clubes nunca foram rebaixados. Dínamo Moscou (Rússia), Dínamo Kiev (Ucrânia) e Dínamo Tibilisi (Geórgia) jamais estiveram ausentes da elite do futebol de seus países. Feito que pode não se manter na temporada 2016/17, já que a história pode ser reescrita neste sábado, 21 de maio. Data que pode ficar marcada como o dia em que o Dínamo Moscou caiu da Premier League russa.

Primeiro campeão soviético, o Dínamo Moscou foi perdendo força e representatividade desde seu último título nacional, há exatos 40 anos, em 1976. De lá para cá, o máximo que conseguiu foram dois vice-campeonatos - 1986 (Soviético) e 1994 (Russo). Nos últimos anos, o clube se viu envolvido em meio a uma turbulência política e financeira. A exclusão das competições europeias por descumprimento do fairplay financeiro da UEFA agravou a crise, fazendo com que tivesse que vender seus principais atletas, dentre eles o francês Valbuena.

É este o contexto que faz com que o Dínamo vá entrar em campo às 7h30 (horário do Brasil) na Arena Khimki tendo pela frente uma difícil missão. Com 25 pontos, o clube que em seus tempos áureos era ligado ao Ministério da Administração Interna (responsável pela KGB) é seguido de perto por FC Ufa e Mordovia Saransk, que somam 24. O problema é que para seguir sendo um dos únicos três clubes do futebol soviético e pós-soviético a nunca ter caído de divisão, o Dínamo vai precisar vencer um de seus rivais mais recentes - Zenit (3º colocado) - e ainda torcer por vitórias de seus rivais moscovitas: Lokomotiv (que briga por mais nada e enfrenta o Mordovia Saransk) e seu arqui-inimigo Spartak (que ainda pode beliscar uma vaga na Liga Europa), que encara o Ufa.

A rivalidade entre Spartak e Dínamo Moscou é a mais antiga do futebol russo. E, nos tempos soviéticos, era a mais acalorada, já que o antagonismo entre as duas agremiações ia bem além das quatro linhas do gramado. Fundado por Lavrenty Beria, braço direito de Stálin e chefe da KGB, o Dínamo era conhecido como o clube da polícia secreta soviética. Por essa razão, várias eram as queixas de rivais contra benefícios à equipe de Beria. O Spartak, por seu turno, era o único clube soviético que não tinha ligação direta a um órgão do Estado. Seu nome, escolhido pelo líder Nikolai Starostin, era uma alusão ao escravo Spartacus que liderou uma rebelião contra Roma. Por essa razão, o Spartak se tornou “o time do povo”.

É verdade que o clássico, que até os anos 1970 fazia parar a União Soviética, tenha perdido sua importância ao longo dos anos, devido à perda de competitividade do Dínamo Moscou. Primeiro, o Dínamo Moscou deu lugar ao Dínamo Kiev como o maior rival do Spartak na União Soviética - uma rivalidade que se manteve mesmo após o fim do país. Depois, o crescimento do CSKA fez com que este tomasse o lugar no maior dérbi da capital russa. Apesar disso tudo, é justamente o passado de antagonismo que faz com que os torcedores do Spartak anseiem por uma vingança contra o antigo rival. Em especial episódios históricos relacionados a Nikolai Starostin e seus irmãos, fundadores do “time do povo”.

Durante a II Guerra Mundial, Nikolai Starostin e seus três irmãos (que também jogavam pelo Spartak) foram presos em 1942 e, depois de dois anos em presídio do Moscou, foram levados as Gulags - campos de trabalhos forçados. O atleta, que era capitão das seleções soviéticas de futebol e hóquei no gelo credita sua sobrevivência à enorme popularidade de que gozava. Mesmo livre dos campos de concentração, Nikolai chegou a ser exilado no Cazaquistão, onde teve que treinar o Kairat Almaty. Sua liberdade só viria em 1953, após a morte de Stálin.

Somente em 1954, 12 anos após sua prisão, Nikolai pôde voltar ao clube que fundou, já como presidente. Perder para o Ufa e ajudar a derrubar o Dínamo Moscou é visto pela torcida do Spartak como uma forma de vingar sua própria história.

Mas o Dínamo depende apenas de si. É que mesmo que o Spartak perca para o Ufa (ou o Lokomotiv Moscou para o Mordovia Saransk), o Dínamo precisa somente de uma vitória em “casa” (a Arena Khimki está para a capital russa como a Arena Pernambuco para os clubes recifenses, digamos assim). O problema, entretanto, é que os “policiais” enfrentam o bom time do Zenit de São Petersburgo. E apesar de já estar praticamente assegurado no terceiro lugar, o Zenit também adoraria ver o Dínamo rebaixado. Especialmente seus torcedores, inimigos declarados do clube da capital.

No que depender dos três rivais que desejam sua queda e de seu péssimo retrospecto recente - sem vencer há dois meses (sete derrotas e um empate) - o Dínamo Moscou, clube do lendário Lev Yashin, parece ter seu destino traçado com seu primeiro encontro com a segunda divisão em toda sua história. Todos os jogos da última rodada da Premier League russa acontecem às 7h30 deste sábado.

Título: entre um gigante e o ineditismo
Embora o grande atrativo da rodada seja a possível queda inédita do histórico Dínamo de Moscou, a última jornada do campeonato russo ainda reserva a briga pelo título. E o troféu de campeão nacional se encontra entre o gigante CSKA Moscou (sete vezes campeão soviético [quarto maior] e cinco vezes campeão russo [segundo]) e o pequeno FC Rostov. A Rússia, por sinal, também tem o seu Leicester. É que além de nunca ter sido campeão, o FC Rostov também brigou para não cair na temporada passada. A equipe cuja melhor classificação no campeonato russo foi um sexto lugar em 1998, teve que disputar os playoffs do rebaixamento para se manter na Premier League. O Rostov chegou a liderar a competição, quando bateu o próprio CSKA por 2 a 0, mas chega à rodada decisiva dois pontos atrás do clube da capital (62 x 60). Tanto CSKA quanto Rostov jogam foram. O líder, que busca seu terceiro título em quatro anos, vai a Kazan encarar o 10º colocado Rubin. Enquanto o vice-líder visita o Terek (sétimo). O CSKA, porém, não joga pelo empate. Isso porque se empatar e o Rostov vencer, é o time do Sul do país que leva o título, graças ao critério de confronto direto.

PS. Aproveitando o ensejo, aviso que em 2017 devo publicar meu trabalho sobre a história do futebol na União Soviética. Um ano simbólico, já que completam-se 100 anos da revolução e a Rússia sedia a Copa das Confederações.

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